Continuando a exposição das aulas de psicologia cognitiva, tratarei neste post sobre um dos mecanismos mais importantes da cognição e da inteligência humana, a memória, definida em aula como “Habilidade de adquirir, reter e usar informações e conhecimentos”.
A memória implica em constantes mudanças, no contexto humano trata-se de informações que de alguma maneira podem ser armazenadas e posteriormente utilizadas, basicamente consiste em consolidação, quando a informação desaparece da consciência e evocação, quando a informação retorna à consciência. Seu bom funcionamento, paradoxalmente, depende do esquecimento.
Assistam o seguinte vídeo, um teste psicológico em que há 2 times, um de branco e um de preto, cada um tocando bolas de basquete entre os seus jogadores. O objetivo é contar o número de passes que o time de branco faz entre os seus jogadores, mas fiquem atentos pois a velocidade dos passes e os jogadores de preto podem confundir a sua contagem:
Update: Para melhores resultados no testes é interessante que o vídeo seja carregado antes de assisti-lo.
Em sala de aula a grande minoria das pessoas, não me lembro exatamente quantas, perceberam que há uma “surpresa” no meio do vídeo. Isto se deve ao fato de que geralmente o cérebro “exclui” elementos que não possuem importância para o foco de sua atenção – a exclusão do gorila de sua memória é essencial para que você conte corretamente o número de passes entre os jogadores de branco.
Outro caso curioso sobre esquecimento citado em aula foi o de Solomon Shereshevsky, um homem com uma memória “quase perfeita”, capaz de lembrar os mínimos detalhes de um livro, os dados de uma lista telefônica inteira, todos os objetos de um ambiente, etc., pelo fato de que seu cérebro raramente excluía informações de sua memória. Parece ser muito bom e divertido, mas Solomon não conseguia reconhecer nem mesmo as faces de seus próprios familiares, uma vez que cada expressão era interpretada como imagens distintas em seu cérebro – prestava atenção nos detalhes ao custo do sentido global, não abstraindo nem metaforizando quase nada.
Vamos fazer mais um teste – Tente decorar durante uns 5 segundos (colabore) as palavras abaixo, em seguida desvie o seu olhar do monitor e escreva em uma folha de papel as palavras que conseguir lembrar.
Retrato
Libélula
Casaco
Violino
Pálpebra
Tomate
Laudo
Prancha
Irmão
Provavelmente você conseguiu se lembrar das palavras que estavam mais no topo (Retrato, Libélula…) e na base (Prancha, Irmão…), é o que ocorre, em média, com as pessoas que fazem este teste, pelo fato de que as palavras localizadas no topo da lista tiveram muito mais tempo para serem consolidadas do que as restantes, uma provável relação com a memória de longo prazo e as da base ainda estão ativas por serem mais recentes (considerando que a maioria das pessoas lê de cima para baixo), uma provável relação com a memória de curto prazo, enquanto as do meio nem foram suficientemente consolidadas a ponto de serem evocadas por sua consciência, nem são tão recentes a ponto de ainda estarem ativas em sua consciência.
As evidências observadas em cada modelo ou tipo de memória nos levam a chegar em algumas conclusões e deduzir algumas técnicas de memorização. Não é meu objetivo expor todas estas técnicas, nem ensiná-los a como ter uma memória excepcional, mas são exemplos interessantes dados em aula :
Vejam este pequeno exemplo sobre memória sensorial:
Esta imagem foi exibida para alguns voluntários durante 50 milisegundos. Niguém se recordou de todas as letras. Alguns sinais sonoros foram associados a cada fileira e as associações foram ensinadas aos voluntários. A tarefa seguinte era tentar recordar as letras correspondentes ao sinal sonoro emitido – a maioria das pessoas se lembrou de todas as letras da fileira, levando à conclusão de que o tempo de consolidação da informação tem importância, mas a maneira como esta informação é estruturada é trivial para a sua evocação.
Em outro teste realizado em aula, uma voluntária saiu da sala enquanto a seguinte sequência de números foi apresentada durante uns 2 segundos a um segundo voluntário:
1 4 0 2 8 0 5 6 0
Ao tentar se recordar de todos os números, em ordem, o resultado não foi muito positivo – alguns números foram esquecidos e outros estavam em posições diferentes. A voluntária fora da sala foi chamada e a seguinte sequência foi apresentada também durante uns 2 segundos:
140 280 560
Ela se recordou de todos os números sem nenhuma dificuldade. A técnica chamada de agrupamento (chunking) nos mostra que provavelmente o ser humano possui uma quantidade limitada de elementos que podem ser acessíveis em curto prazo, desta maneira, elementos agrupados se tornam um só elemento, facilitando a evocação.
A eficiência do agrupamento visual também foi demonstrado em um experimento com voluntários novatos e experientes em jogos de xadrez:
- Arranjos de peças reais, que geralmente são oriundos de determinadas sequências de jogadas, foram apresentados a todos os voluntários:
- Jogadores experientes se lembraram em média da posição de 16 peças;
- Novatos se lembraram em média da posição de 4 peças;
- Arranjos de peças aleatórios foram apresentados a todos os voluntários:
- Jogadores experientes se lembraram em média da posição de 3 peças;
- Novatos se lembraram em média da posição de 3 peças;
Hierarquizar elementos ou informações (criando mapas ou fluxogramas) também é um método eficiente para facilitar a evocação, uma vez que ela é realizada através de conexões entre os neurônios – um elemento se relaciona ao outro no cérebro humano, esquematizá-lo no papel é uma boa pedida!
O estado no qual um indivíduo se encontra enquanto consolida informações também influencia. Alguns voluntários foram levados a estudar/memorizar em diferentes situações:
- Dentro e fora da água
- Os que estudaram dentro se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações dentro do que fora;
- Os que estudaram fora se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações fora do que dentro;
- Com e sem ruído
- Os que estudaram com ruído se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações com do que sem ruído;
- Os que estudaram sem ruído se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações sem do que com ruído;
- Triste ou feliz
- Os que estudaram tristes se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações tristes do que felizes;
- Os que estudaram felizes se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações felizes do que tristes;
Esta é outra boa dica para quem deseja estudar ou memorizar coisas, mas é muito importante lembrar que para que as informações possam ser evocadas com facilidade em qualquer lugar ou situação é necessário que os estudos e a memorização aconteçam em lugares distintos, com influências distintas.
A consolidação da memória também pode ser sugestionada. Voluntários assistiram a um vídeo de acidente de carro, em seguida foram questionados da seguinte maneira:
“Qual era a velocidade aproximada do carro quando se (verbo)?”
No qual o verbo variou com cada voluntário (esmagou, chocou, bateu, tocou). Quanto “mais intensos” eram os verbos da pergunta, maiores foram as estimativas das velocidades respondidas. No acidente nenhum vidro do carro se quebrou, mas as pessoas foram questionadas sobre este fato e as que ouviram a primeira pergunta com os verbos “mais intensos” responderam mais positivamente do que as que ouviram a pergunta com os verbos “menos intensos”.
Este tipo de consolidação após evento é muito comum em audiências judiciais, em que testemunhas podem ser sugestionadas a fornecer uma determinada resposta dependendo da meneira como a questão é realizada.
Estudamos alguns modelos sobre o funcionamento da memória propostos por diferentes pesquisadores em diferentes épocas. Não vou entrar em detalhes sobre cada um deles, mas todos se relacionam ou com memórias de curto e longo prazo ou com memória de trabalho (ligada mais a representações visuais e fonológicas do que ao tempo) ou com relações entre todos estes tipos de memória, com alguns alicerces semânticos e sintáticos da informação que pode ser armazenada.
Aí vão alguns links sobre diferentes tipos e modelos de memória vistos em aula:
Artigo sobre memória da Wikiédia
Modelo de memória proposto por Atkinson & Shiffrin em 1968
Modelo de memória proposto por Baddeley & Hitch em 1974
Modelo de memória proposto por Craik & Lockhart em 1972
Obrigado pessoal, até a próxima!

