Archive for the ‘Diário Expandido’ category

This is it!

novembro 7th, 2009

Sexta-feira, calor, muita água, muito café também, almoço no shopping com a galera do trabalho, apresentação dos funcionários novos, nenhuma matéria na faculdade, namorada no fim do expediente, shopping, cinema, pipoca, Michael Jackson, This is it!

this-is-it-cartaz

Confesso que fui ao cinema mais pelo interesse de Isabela, minha namorada. Nunca fui grande admirador da figura de Michael Jackson – não por possuir alguma aversão à personalidade, nem tampouco por qualquer tipo de preconceito ou algo do gênero. Ainda assim, tem o meu respeito, meu reconhecimento de sua importância e influência e não nego que sua batida é envolvente, nem que estou assobiando Billie Jean neste exato momento.

Também não posso dizer que seu filme póstumo This is it me fez mudar de opinião e me tornou um fã. Nada disso. Mas definitivamente me envolveu, me fez refletir sobre sua história, apesar do filme não ser nem um pouco biográfico e apesar ainda de meu conhecimento quase nulo sobre a sua vida, salvo aquele adquirido em épocas de escândalos ou nestes últimos meses, após a sua morte. Limitado pela minha ignorância, não ouso tirar conclusões sobre a vida de Michael Jackson, mas tenho palpites e eles absolvem o rei do pop de qualquer acusação de pedofilia e o classificam como uma pessoa boa – não como um exemplo, simplismente como uma pessoa boa.

O documentário de 111 minutos This is it, dirigido por Kenny Ortega, parceiro de Michael Jackson na produção do show, possui filmagens dos bastidores, ensaios e produções de novos video-clipes para os clássicos de MJ, que seriam exibidos no que seria o seu próximo show. Os registros realizados desde a seleção exigente de Michael para os dançarinos do show, até os ensaios para a música de fechamento, iriam para o seu arquivo pessoal e parte deles seriam exibidos durante o espetáculo.

Além da indiscutível capacidade de inovar de Michael Jackson, as filmagens revelaram algumas minunciosidades da personalidade do astro que o tornaram tão inovador e irreverente. Seu perfeccionismo era diferente – os ensaios e as passadas de músicas, tons e passos evidenciavam a capacidade de que Michael tinha de sentir o seu trabalho – repetir um trecho de uma determinada música sozinho, de maneira introspectiva, ou pular, dançar, espernear, sentindo a sua música, até estar satisfeito, não com o tom, com a melodia ou com a coreografia padronizada, mas com a maneira que estes fatores deixavam o seu estado de espírito – e todas estas irreverências criadas naturalmente fariam parte do seu show.

Foi interessante notar como os produtores se comunicavam e davam feedbacks a Michael – havia uma cautela peculiar, ao mesmo tempo em que pareciam preocupados em não aborrecerem o rei, demonstravam um profundo respeito à figura com quem estavam tratando. O mesmo acontecia, de forma ainda mais interessante, quando era Michael Jackson que precisava dar algum feedback aos seus músicos, dançarinos ou produtores – Era modesto, tinha consciência de que seus pedidos seriam atendidos sem pestanejos, mas fazia questão de tentar não demonstrar nenhum tipo de arrogância, nem autoritarismo – “Falo isso por bem”, “Não é por mal”, “Entendam por favor, é tupo por amor – A-M-O-R”, “Deus os abençõe!”. Como eram diferentes as maneiras com que aprendia a ser um artista com seu pai! Como frases singelas como estas demonstravam uma vida inteira de rancor…

Por final, o que mais me fez refletir foram os seus ensaios, mais especificamente a maneira como ele dançava e cantava – não pela irreverência, mas pela economia de esforço. A princípio estranhei muito o fato de seus dançarinos demonstrarem muito mais ânimo do que o próprio Michael Jackson, ou de seus vocais se dedicarem muito mais a darem um espetáculo, mas aos poucos foi possível notar que realmente era uma economia de esforço, Michael chegou a se culpar quando cantou tão bem e promoveu um espetáculo particular aos presentes no ensaio de Just can’t stop love you, dizendo que não deveria ter feito aquilo, que tudo aquilo era apenas um aquecimento. Fui longe me recordando de minhas aulas de física – nenhuma energia se cria ou se destrói, apenas se transforma – se um corpo é solto no ar a gravidade faz com que ele possua energia mecânica, oriunda de sua energia potencial, enquanto estava com velocidade zero – e foi justamente esta energia potencial que Michael Jackson possuia nos ensaios. Comecei a imaginar: Se mesmo sem todo o esforço possível, os bastidores de This is it foram sensacionais, o que o show revelaria no momento de transformar toda aquela energia potencial? E após a sua morte, de que maneira ela foi transformada? Talvez seus amigos próximos ou parentes a tenham utilizado de alguma maneira, ou algum outro artista a aproveitado em algum outro show qualquer, ou talvez o mundo possa ter ficado um pouquinho melhor e grato a Michael Jackson…

Trailer de This is it:

Website oficial do filme: http://www.thisisit-movie.com/

“GOD BLESS YOU!”

\o

Psicologia Cognitiva – Memória

outubro 29th, 2009

Continuando a exposição das aulas de psicologia cognitiva, tratarei neste post sobre um dos mecanismos mais importantes da cognição e da inteligência humana, a memória, definida em aula como “Habilidade de adquirir, reter e usar informações e conhecimentos”.

A memória implica em constantes mudanças, no contexto humano trata-se de informações que de alguma maneira podem ser armazenadas e posteriormente utilizadas, basicamente consiste em consolidação, quando a informação desaparece da consciência e evocação, quando a informação retorna à consciência. Seu bom funcionamento, paradoxalmente, depende do esquecimento.

Assistam o seguinte vídeo, um teste psicológico em que há 2 times, um de branco e um de preto, cada um tocando bolas de basquete entre os seus jogadores. O objetivo é contar o número de passes que o time de branco faz entre os seus jogadores, mas fiquem atentos pois a velocidade dos passes e os jogadores de preto podem confundir a sua contagem:

Update: Para melhores resultados no testes é interessante que o vídeo seja carregado antes de assisti-lo.

Em sala de aula a grande minoria das pessoas, não me lembro exatamente quantas, perceberam que há uma “surpresa” no meio do vídeo. Isto se deve ao fato de que geralmente o cérebro “exclui” elementos que não possuem importância para o foco de sua atenção – a exclusão do gorila de sua memória é essencial para que você conte corretamente o número de passes entre os jogadores de branco.

Outro caso curioso sobre esquecimento citado em aula foi o de Solomon Shereshevsky, um homem com uma memória “quase perfeita”, capaz de lembrar os mínimos detalhes de um livro, os dados de uma lista telefônica inteira, todos os objetos de um ambiente, etc., pelo fato de que seu cérebro raramente excluía informações de sua memória. Parece ser muito bom e divertido, mas Solomon não conseguia reconhecer nem mesmo as faces de seus próprios familiares, uma vez que cada expressão era interpretada como imagens distintas em seu cérebro – prestava atenção nos detalhes ao custo do sentido global, não abstraindo nem metaforizando quase nada.

Vamos fazer mais um teste – Tente decorar durante uns 5 segundos (colabore) as palavras abaixo, em seguida desvie o seu olhar do monitor e escreva em uma folha de papel as palavras que conseguir lembrar.

Retrato
Libélula
Casaco
Violino
Pálpebra
Tomate
Laudo
Prancha
Irmão

Provavelmente você conseguiu se lembrar das palavras que estavam mais no topo (Retrato, Libélula…) e na base (Prancha, Irmão…), é o que ocorre, em média, com as pessoas que fazem este teste, pelo fato de que as palavras localizadas no topo da lista tiveram muito mais tempo para serem consolidadas do que as restantes, uma provável relação com a memória de longo prazo e as da base ainda estão ativas por serem mais recentes (considerando que a maioria das pessoas lê de cima para baixo), uma provável relação com a memória de curto prazo, enquanto as do meio nem foram suficientemente consolidadas a ponto de serem evocadas por sua consciência, nem são tão recentes a ponto de ainda estarem ativas em sua consciência.

As evidências observadas em cada modelo ou tipo de memória nos levam a chegar em algumas conclusões e deduzir algumas técnicas de memorização. Não é meu objetivo expor todas estas técnicas, nem ensiná-los a como ter uma memória excepcional, mas são exemplos interessantes dados em aula :

Vejam este pequeno exemplo sobre memória sensorial:

letrasEsta imagem foi exibida para alguns voluntários durante 50 milisegundos. Niguém se recordou de todas as letras. Alguns sinais sonoros foram associados a cada fileira e as associações foram ensinadas aos voluntários. A tarefa seguinte era tentar recordar as letras correspondentes ao sinal sonoro emitido – a maioria das pessoas se lembrou de todas as letras da fileira, levando à conclusão de que o tempo de consolidação da informação tem importância, mas a maneira como esta informação é estruturada é trivial para a sua evocação.

Em outro teste realizado em aula, uma voluntária saiu da sala enquanto a seguinte sequência de números foi apresentada durante uns 2 segundos a um segundo voluntário:

1 4 0 2 8 0 5 6 0

Ao tentar se recordar de todos os números, em ordem, o resultado não foi muito positivo – alguns números foram esquecidos e outros estavam em posições diferentes. A voluntária fora da sala foi chamada e a seguinte sequência foi apresentada também durante uns 2 segundos:

140   280  560

Ela se recordou de todos os números sem nenhuma dificuldade. A técnica chamada de agrupamento (chunking) nos mostra que provavelmente o ser humano possui uma quantidade limitada de elementos que podem ser acessíveis em curto prazo, desta maneira, elementos agrupados se tornam um só elemento, facilitando a evocação.

A eficiência do agrupamento visual também foi demonstrado em um experimento com voluntários novatos e experientes em jogos de xadrez:

  • Arranjos de peças reais, que geralmente são oriundos de determinadas sequências de jogadas, foram apresentados a todos os voluntários:
    • Jogadores experientes se lembraram em média da posição de 16 peças;
    • Novatos se lembraram em média da posição de 4 peças;
  • Arranjos de peças aleatórios foram apresentados a todos os voluntários:
    • Jogadores experientes se lembraram em média da posição de 3 peças;
    • Novatos se lembraram em média da posição de 3 peças;

Hierarquizar elementos ou informações (criando mapas ou fluxogramas) também é um método eficiente para facilitar a evocação, uma vez que ela é realizada através de conexões entre os neurônios – um elemento se relaciona ao outro no cérebro humano, esquematizá-lo no papel é uma boa pedida!

O estado no qual um indivíduo se encontra enquanto consolida informações também influencia. Alguns voluntários foram levados a estudar/memorizar em diferentes situações:

  • Dentro e fora da água
    • Os que estudaram dentro se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações dentro do que fora;
    • Os que estudaram fora se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações fora do que dentro;
  • Com e sem ruído
    • Os que estudaram com ruído se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações com do que sem ruído;
    • Os que estudaram sem ruído se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações sem do que com ruído;
  • Triste ou feliz
    • Os que estudaram tristes se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações tristes do que felizes;
    • Os que estudaram felizes se lembraram de mais coisas quando tentaram evocar informações felizes do que tristes;

Esta é outra boa dica para quem deseja estudar ou memorizar coisas, mas é muito importante lembrar que para que as informações possam ser evocadas com facilidade em qualquer lugar ou situação é necessário que os estudos e a memorização aconteçam em lugares distintos, com influências distintas.

A consolidação da memória também pode ser sugestionada. Voluntários assistiram a um vídeo de acidente de carro, em seguida foram questionados da seguinte maneira:

“Qual era a velocidade aproximada do carro quando se (verbo)?”

No qual o verbo variou com cada voluntário (esmagou, chocou, bateu, tocou). Quanto “mais intensos” eram os verbos da pergunta, maiores foram as estimativas das velocidades respondidas. No acidente nenhum vidro do carro se quebrou, mas as pessoas foram questionadas sobre este fato e as que ouviram a primeira pergunta com os verbos “mais intensos” responderam mais positivamente do que as que ouviram a pergunta com os verbos “menos intensos”.

Este tipo de consolidação após evento é muito comum em audiências judiciais, em que testemunhas podem ser sugestionadas a fornecer uma determinada resposta dependendo da meneira como a questão é realizada.

Estudamos alguns modelos sobre o funcionamento da memória propostos por diferentes pesquisadores em diferentes épocas. Não vou entrar em detalhes sobre cada um deles, mas todos se relacionam ou com memórias de curto e longo prazo ou com memória de trabalho (ligada mais a representações visuais e fonológicas do que ao tempo) ou com relações entre todos estes tipos de memória, com alguns alicerces semânticos e sintáticos da informação que pode ser armazenada.

Aí vão alguns links sobre diferentes tipos e modelos de memória vistos em aula:

Artigo sobre memória da Wikiédia

Modelo de memória proposto por Atkinson & Shiffrin em 1968

Modelo de memória proposto por Baddeley & Hitch em 1974

Modelo de memória proposto por Craik & Lockhart em 1972

Obrigado pessoal, até a próxima!

Rails Summit 2009 – Obie Fernandez

outubro 21st, 2009

Na semana passada eu e toda a equipe de desenvolvimento da UFABC fomos ao Rails Summit 2009, maior encontro de Ruby on Rails da América Latina. O evento, promovido pela Locaweb e guiado por Fábio Akita, teve a sua segunda edição realizada nos dias 13 e 14 de outrubro, no Centro de Convenções Anhembi, em São Paulo. Confira qual foi a programação do evento.

logo_rails_summit

Foram várias as palestras e os temas apresentados durante o Rails Summit, desde valores e paradigmas da linguagem e do framework, até detalhes técnicos e novidades sobre o assunto.

obie_fernandezA palestra de fechamento do evento foi apresentada por Obie Fernandez, autor do The Rails Way, o guia de referência definitiva para Ruby on Rails, editor da Addison-Wesley Professional Ruby Series e reconhecido membro da comunidade internacional de Ruby. Obie é o CEO/fundador da Hashrocket, consultoria web e desenvolvedora de produtos em Jacksonville Beach, Flórida.

Palestra: “Dominando a Arte de Desenvolvimento de Aplicações”

A palestra teve o objetivo de comparar o desenvolvimento de aplicações com criações artísticas. Obie iniciou descrevendo as maneiras como um indivíduo pode ser considerado especialista em alguma coisa, sugerindo como regra maior a prática: “Practice, practice and practice” (Praticar, praticar e praticar). Apesar do caráter óbvio desta colocação, a idéia parece não ser tão simples. Obie dividiu em 3 níveis o domínio que alguém possui sobre alguma modalidade, seja ela esportiva, artística ou de programação. Não me lembro exatamente como foram as classificações atribuídas por ele, mas era algo assim:

1º nível: O especialista. A pessoa é expert e muitas vezes uma importante referência naquilo que faz.

2º nível: O bom conhecedor. Apesar de não ser a melhor em sua área, a pessoa tem um bom conhecimento. Não passa vergonha.

3º nível: O mediano. Não é leigo, mas pode estar longe de ser o especialista da sua área.

Segundo algumas pesquisas, o tempo médio de prática para que um ser-humano possa se tornar especialista em alguma modalidade em algum momento de sua vida é em torno 10000 (dez mil) horas. Desta maneira, calculando bem por cima, um programador Ruby, por exemplo, com uma jornada diária de 8 horas, levaria cerca de 5 anos para ser especialista na linguagem. Porém, nesta estimativa alguns fatores que não foram levados em consideração podem fazer este tempo se elevar bastante – Apesar da jornada diária de trabalho, qual programador fica, efetivamente, 8 horas por dia apenas codificando ou estudando Ruby? E outro fator, não menos importante: O prazer com que a pessoa exerce determinada atividade – de nada vale 8 horas efetivas diárias se isto for um grande sacrifício. Obie comparou este último fato com o aprendizado de violino – Uma pessoa que desde sua infância pratica e estuda horas e horas por dia o instrumento, mas não tem o mínimo prazer em fazer isto, definitivamente o tempo que ela levará para se tornar uma especialista é extremamente superior (isto se fosse possível).

Entendo que pode paracer uma série de obviedades, e pode até ser, mas foi brilhantemente exposta por Obie Fernandez. Recomendo assistirem ou lerem algum material de sua autoria. Mas as partes mais legais, na minha opinião, foram as menções ao desenvolvimento ágil:

Assim como um artista plástico idealiza uma obra de arte em que o resultado final não é claro em sua mente, não se deve esperar que o desenvolvedor preveja todas as funcionalidades e o formato definitivo do sistema antes mesmo de começar a desenvolver – o pecado capital da maioria das metodologias clássicas de engenharia de software. Da mesma forma,  o artista não pinta um quadro o dividindo em partes isoladas, assim como o desenvolvimento e a programação de um sistema pode fluir muito melhor se não for excessivamente modularizada. Reparem nas diferenças:
monalisa_desenvolvimento_agilOutra prática muito comum utilizada em metodologias de desenvolvimento ágil são os testes automatizados de sistema: TDD (Test Driven Development ou Desenvolvimento Orientado a Testes). Uma feature de um sistema só deve ser codificada caso um teste para esta feature também já tiver sido previamente codificado, garantindo a integridade de todo o sistema, evitando, ou melhor, evidenciando uma porção de erros inimagináveis em futuras modificações sem que eles precisem ser encontrados pelo usuário final (como acontece na maioria das vezes em que um sistema é desenvolvido sem testes automatizados) e principalmente proporcionando uma visão clara e garantida do funcionamento do sistema como um todo, sem ao menos ter realizado nenhum teste real, assim como alguns especialistas da música conseguem imaginar perfeitamente como é a melodia da obra sem a ter ouvido nem uma única vez, apenas pela sua partitura.

A palestra foi ótima!

Aos programadores que não conhecem estes tipos de metodologias (Agile Development, TDD, etc), recomendo fortemente que pesquisem sobre. Ficam aí alguns links:

Test Driven Development
Agile Manifesto
Desenvolvimento ágil de software
Scrum

Web Site oficial de Obie Fernandez: http://obiefernandez.com/

A alegoria da caverna

outubro 16th, 2009

Antes de mais nada, aqueles que ainda não conhecem o mito, leiam este texto retirado da Wikipédia:

O mito da caverna, ou  Alegoria da caverna, foi escrita por Platão, e encontra-se na obra intitulada A República (livro VII). Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade.

Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.

Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder locomover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira.

Os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

Um dos prisioneiros decide abandonar essa condição e fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. Aos poucos vai se movendo e avança na direção do muro e o escala, com dificuldade enfrenta os obstáculos que encontra e sai da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.

Leia mais…

É inevitável imaginar inúmeras situações em que a metáfora da caverna proposta por Platão se aplicaria para representar a fuga, a quebra de paradigmas para um mundo novo, um mundo mais real. Eis algumas que ao longo dos anos eu presencio, muitas vezes me incomodo, mas principalmente tento compreendê-las e entender o motivo pelo qual o ser-humano muitas vezes não toma decisões que são parecem tão óbvias e corretas:

Na vida profissional: Assim como os prisioneiros que ouviriam as descrições colocadas pelo homem que saiu da caverna e viu o “mundo real” mas que não acreditariam e teriam muito medo e receio de conhecer algo novo, alguns profissionais demonstram um aparente conformismo com a situação nas quais se encontram, que mais se resume a medo também. Não estou falando de situação financeira ou de cargos e status, estes são fatores que podem ser meras consequencias de outras atitudes, ou não, não vêem ao caso de qualquer maneira. Estou falando dos casos em que uma situação desconfortável e notória não é corrigida, nem se quer reavaliada simplismente pelo fato de que esta situação sempre foi assim em todos os lugares, e portanto, é perfeitamente normal e intocável. A exemplo de metodologias de desenvolvimento de softwares – existe um caminho repleto de defeitos e fatores críticos que só atrasam a entrega e a garantia da qualidade de um software, mas que é ofuscado pelo simples fato de que é comumente utilizado e reconhecido – para que sair da caverna, se estas sombras já nos dizem tudo o que precisamos, não é mesmo?. Para quem não conhece, pesquise sobre o manifesto ágil e algumas de suas metodologias, mas por favor, não os tomem como verdades absolutas, não saiam de uma caverna para se abrigarem em outra. Apenas ousem!

Nos relacionamentos interpessoais: Será mesmo que eu tenho razão? Ser tão convícto e orgulhoso é uma virtude? É tão claro, mas tão difícil notar que a fuga da caverna, quando estamos tratando de debates supostamente baseados em conhecimento, além de revelar novas alternativas, novas visões, ainda pode nos poupar um bocado de mal-estar entre indivíduos. Doutores e pesquisadores devem ter muito cuidado para não escaparem de suas antigas cavernas e se realojarem em cavernas de luxo, gigantes, com sombras novas e sons diferentes, mas que ainda assim são cavernas, são sombras. E isto também vale para a consideração desta minha colocação. Entre estar parecer estar com a razão e manter um relacionamento agradável, sem mals-estares involuntários causados por orgulhos e prepotências desnecessárias é interessante a ponderação do que pode ser mais útil – tanto para o relacionamento interpessoal quanto para a fuga da caverna e descoberta de um “mundo novo”.

Na universidade: Faço Bacharelado em Ciências e Tecnologia e vou me especializar em Ciências da Computação. É comum eu escutar comentários e palpites sobre determinadas disciplinas que eu curso, que paracem nada ter a ver com a minha especialidade. Insisto que apóio o caráter interdisciplinar da minha Universidade e que tenho alguma convicção de que pensar um pouquinho fora da caixa, deixar de fazer apenas o que é comum e fugir das cavernas pode valer muito a pena. Isto vale para aquele tipo de pergunta: “Pra que preciso ver isso aí se eu não vou usar?!”.

Na política e na religião: Sim, eu sei, caros leitores. Já sei, já sei… Ok, calma… Calma! Já sei muito bem como é complicado discutir estes assuntos, mas eu peço gentilmente e educadamente que tentem imaginar como seria o mundo lá fora das cavernas e… Ok, desisto. >=(

Um paradoxo: Talvez isto possa se refletir na questão dos relacionamentos interpessoais. A busca pelo “novo mundo” fora da caverna certamente é infinita. É válido, então, construirmos as nossas próprias realidades para definirmos os nossos próprios limites do que é bom e do que não é? Repito a pergunta: É mais importante estar certo ou ser feliz? Eu até tenho uma opinião sobre este paradoxo: cada caso é um caso e as situações não devem ser avaliadas da mesma maneira. Mas deixo ainda estas questões no ar…

Os exemplos não acabam, não vou reclamar se deixarem outros nos comentários ;)

Uma ótima paródia de Maurício de Souza:

Obrigado e até a próxima! \o

Bastardos Inglórios

outubro 12th, 2009

Update: Não contém spoilers!!!

Quando assisti ao trailer de Bastardos Inglórios, há pouco menos de 1 mês, surgiu a vontade de assistir mais uma representação histórica de judeus e nazismo durante o holocausto. Eu não havia prestado atenção no produtor e diretor do filme.

Sábado (10/10) no cinema não presenciei nenhuma dramatização da história, mas outra obra de Quentin Tarantino. Não foi nenhuma decepção – a surpresa foi agradável.

bastardos_inglorios-1A judia Shosanna, refugiada com sua família na casa de um camponês francês, que vivia na França ocupada pela Alemanhã em 1941, sobrevive a um massacre à sua família, comandado por um oficial do exército nazista, apelidado de “Caçador de Judeus”. Em Paris Shosanna assume uma nova identidade e se torna proprietária de um cinema, que possui um empregado, querido e amante da judia, negro.

Aldo (Brad Pitt) é um tenente americano que comanda um exército de americanos judeus motivados a vingar o genocídio nazista que vinha acontecendo – torturando, assassinando e arrancando escalpos de soldados alemães do exército nazista. Conhecidos como  “Bastardos Inglórios” o exército de Aldo é conhecido e repudiado por Hittler.

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Após a proposta de um produtor de cinema alemão estreiar um filme relatando a história de um soldado nazista que se tornou herói após algumas batalhas na guerra, no cinema de Shosanna, onde nazistas compareceriam em massa, inclusive o Führer, a judia, ciente de que o oficial alemão que massacrara a sua família compareceria ao evento, enxerga, junto com seu companheiro negro, uma oportunidade única de vingança – um ataque suicída que incendiaria o cinema com todos os presentes na “Noite Nazista”.

A sede de vingança de Shosanna e de Aldo e seu exército se coincidem na mesma noite, no mesmo evento, o ápice do filme.

Não revelarei o desfecho da estória, mas seja qual for, Quetin Tarantino, apesar de ter se baseado em um cenário histórico, criou uma total ficção em Bastardos Inglórios, repleta dos tradicionais exageros e minunciosidades comumente presentes em seus filmes, saí do cinema com uma pitada de desejo de que soldados nazistas ou mesmo Adolf Hitler tivessem assistido à produção. Seria gratificante.

Trailer do filme:

Recomendo!

Website oficial do filme: http://www.inglouriousbasterds-movie.com