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A USP e suas polêmicas

novembro 8th, 2011

No último dia 27, o debate referente à presença da Polícia Militar no campus da USP voltou à mídia após alguns estudantes serem flagrados fumando maconha na universidade.

Ocupações e manifestações estampam capas de jornais e têm destaques na mídia -  Nas últimas semanas muito vi e ouvi críticas aos que condenam estas manifestações, alegando que ou não vivenciam a realidade da USP, ou que se deixam levar pela mídia. Em certa parte concordo, e por isso evitei manifestar a minha opinião, até porque, acredito que não tinha uma bem formulada – na verdade talvez ainda não tenha – mas vou compartilhar um pouco da que tenho construído.

A questão da segurança
Os argumentos e as causas defendidas pelos manifestantes, são válidas e extremamente lógicas. Tomei a liberdade de utilizar citações de um texto criado por um amigo, estudante da USP e defensor das manifestações:
“(…)A universidade pública, é o lugar em que novos modelos são pensados. Modelos atômicos, modelos arquitetônicos, modelos tecnológicos e modelos sociais! (…) é o lugar de desenvolver e testar esses modelos, seja a fiação do poste que passa por baixo e não por cima, seja tendo muito mais rotatórias que semáforos, seja tendo uma política de segurança vinculada a necessidade dos que vivem nesse espaço! (…)” .
Desta forma, o que é reivindicado é que, levanto em conta o fato da universidade ser uma autarquia, é seu dever cuidar de todas as suas questões, inclusive da segurança, e, uma vez transferindo esta responsabilidade para o estado, a possibilidade de testar um modelo de segurança mais eficiente, apresentando-o à sociedade, vai por água a baixo (convenhamos que não vivemos num estado seguro, mesmo com nossa PM).
Sou da opinião, ao contrário dos manifestantes, de que HOJE a presença da PM no campus pode complementar as medidas propostas para maior segurança:
“(…)Para começar, segurança tem a ver com infra-estrutura. Um campus bem cuidado, com mato cortado e bem iluminado com certeza seria mais seguro. (…) mais circulares permitiriam que as pessoas passassem menos tempo nos pontos expostas ou se aventurassem em longas caminhadas tarde da noite. Se uma guarda é necessária, que seja a guarda universitária, (…) que tenha a função de guardar as pessoas e não os prédios. Que seja incorporada ao quadro de funcionários da universidade e não conte com terceirizados. Que tenha mais mulheres e formação em direitos humanos para casos como estupros. E o mais importante: Ter um campus freqüentado pela sociedade. (…)”
Concordo que a segurança no resto da sociedade é extremamente ridícula, devido a precariedades muito semelhantes às da USP. Desta forma, embora acredite que são válidas as causas e manifestações envolvendo o fato de que a reitoria não deve se omitir apenas transferindo a responsabilidade para o estado, discordo de exigirem que a PM saia do campus e que o acordo seja cancelado neste momento. Por mais arborizada, limpa e frequentada que uma região seja, acredito que um mínimo de ordem (armada e militar) deve existir, para inibir e punir eventuais oportunidades violentas. Se esta mínima ordem é de responsabilidade da guarda universitária, é algo que deve ser debatido, o fato é que HOJE a PM é mais preparada para este tipo de inibição.

 

Maconha
É uma questão para outro post, é uma outra discussão, mas sou da opinião de que qualquer um tem o direito de lutar por sua liberação (no momento e de modo oportuno), inclusive a defendo, mas a partir do momento em que sua utilização causa uma ferida enorme no país (tráfico, violência, etc), não acredito que qualquer um tenha o direto de usar sem qualquer forma de inibição.
De qualquer modo, uma certa parcela dos manifestantes alega que este assunto não é o foco do debate e das manifestações. Por ora, vou considerar esta afirmação como verdade. (Tenho minhas dúvidas)

 

Sobre as manifestações e ocupações
“(…) Principal responsável por toda a situação, a reitoria se aproveitou da enorme demanda por segurança para implantar seu projeto elitista de universidade. Essa demanda foi criada pela própria reitoria, ao ignorar pautas antigas do movimento estudantil e de trabalhadores por uma universidade mais segura. O atual reitor, Rodas, não apenas transfere sua responsabilidade para o estado, como usa o convenio como desculpa para não tomar mais nenhuma providencia com relação à segurança. Claro que muitos dos pedidos do movimento estudantil levam tempo e necessitam de investimento, mas é tudo questão de prioridade: Já faz meses que o convenio foi firmado e milhões foram gastos com prédios administrativos ainda muito mal explicados.”
Assumindo que o modelo de segurança proposto pelos manifestantes seja de fato o ideal, e assumindo ainda que a reitoria faz um total descaso com estas justas manifestações, cuidando apenas de interesses elitistas – a ocupação de prédios HOJE é realmente a melhor forma de manifestação?
“Em momentos de muita polarização e politização dos movimentos sociais, a ocupação é um método histórico de lutas. Nos levantes que vimos acontecer este ano ele foi bastante utilizado, praça Tahir no Egito, praça Puerta Del Sol na Espanha. Ocupações de fabricas também são muito comuns na historia. (…)”
Por mais manipuladora que a mídia seja, é perceptível a desordem na qual os manifestantes protestam e divulgam os seus ideais, bem como a participação de alguns que estão lá descaradamente pela adrenalina ou pela sensação de que são heróis como os estudantes do passado (vide frases como “não posso nem fumar minha maconha em paz”, ou ainda pela bebedeira dos estudantes em momento de ocupação) .
O que quero dizer é que, logicamente, não são todos que estão se lixando para esses ideais, mas me parece óbvio que o modo como as reivindicações do passado se davam, fazia sentido no contexto da época, quando o militarismo reprimia de verdade o livre pensamento.
Afirma-se que a PM reprime reivindicações. Talvez. Na verdade eu sei que existem sim policiais que têm “sangue nos olhos” para bater “em vagabundo” – mas reivindicações feitas com ordem, sem vandalismos, depredação de patrimônios públicos (hipocrisia, na minha opinião) e principalmente divulgação e argumentos referentes às causas (para serem ouvidos pela mídia e pela população), esta repressão ou não existe ou é exceção de alguns policiais desumanos.

 

Resumindo
As causas são válidas? Eu considero que sim.
Na minha opinião o principal problema é a desordem e a maneira como os estudantes descontextualizam as históricas formas de reivindicações.