Em minha última aula de Psicologia Cognitiva demos continuidade ao tema tomada de decisões, abordando heurísticas e métodos utilizados por seres humanos em suas decisões, julgamentos e raciocínio. Neste post vou me concentrar nas teorias da utilidade e do prospecto.
O professor Peter Claessens deu início fazendo a seguinte proposta fictícia à classe:
Você tem a opção de jogar 2 dados de 6 lados. Caso o resultado dos 2 dados lançados sejam iguais, você ganha R$12,00, caso contrário, você perde R$3,00. Você toparia entrar na aposta?
Segundo a Teoria Normativa, aquela inspirada pela economia, a probabilidade do resultado ser 2 dados iguais é de 1/6, enquanto a probabilidade de ser 2 dados diferentes é de 5/6. Assim sendo, o valor esperado para aquele que aceita a aposta é calculado da seguinte maneira:
Valor esperado = 1/6 x R$12,00 + 5/6 x R$3,00 = -R$0,50
Podemos considerar então, 2 tipos de decisão daquele que recebeu a proposta:
Decisão A: Não aceitar – Ganho esperado de R$0,00
Decisão B: Aceitar – Ganho esperado de -R$0,50 (Perda de R$0,50)
Podendo concluir que, segundo a teoria normativa ou teoria da utilidade esperada, a melhor decisão seria não aceitar a proposta, considerando que o ganho esperado é maior.
Entretando, a Teoria do Prospecto, proposta por Kahneman & Tversky, ou Teoria descritiva, que levou o psicólogo Kahneman ganhar o prêmio Nobel de economia em 2002, evidencia, através de experimentos comportamentais, o fato de que as tomadas de decisões entre os seres humanos seguem alguns padrões que não necessariamente são baseadas em probabilidades de ganhos esperados. Vejamos as seguintes propostas:
Jogo A: Escolher entre
- Ganho de R$500,00 com 100% de probabilidade
- Ganho de R$1000,00 com 50% de probabilidade (sendo os outros 50%, R$0,00)
Jogo B:Escolher entre
- Perda de R$500,00 com 100% de probabilidade
- Perda de R$1000,00 com 50% de probabilidade (sendo os outros 50%, R$0,00)
Os experimentos comportamentais revelaram que no caso do Jogo A, a maioria das pessoas optou pelo ganho certo de R$500,00, enquanto no Jogo B, a maioria optou pela perda incerta de R$1000,00. Ou seja, a perda “pesa mais” para o ser humano, que possui aversão ao risco em ganho e busca de risco em perda.
Vejamos outro experimento comportamental. Dois dilemas foram propostos aos voluntários:
Dilema 1: Aplicando a vacina
- A, 200 pessoas serão salvas com probabilidade de 100%
- B, 600 pessoas serão salvas com probabilidade de 33,3%
Dilema 2: Aplicando a vacina
- C, 400 pessoas morrerão com probabilidade de 100%
- D, Niguém morrerá com probabilidade de 33,3%
Os resultados revelaram que no caso do Dilema 1, 72% das pessoas optaram pela aversão ao risco (vacina A), enquanto no Dilema 2, 78% das pessoas optaram pela busca de risco (vacina D). Estes resultados revelam a limitação da racionalidade do ser humano, visto que se forem analisadas as probabilidades dos 2 dilemas, se tratam exatamente do mesmo problema. Este é o chamado efeito de estruturação: quando o mesmo problema leva a estratégias diferentes devido ao enquadramento (aspectos irrelevantes para a decisão).
Em aula vimos ainda sobre alguns aspectos da tomada de decisões em grupo. Nestes tipos de decisão temos geralmente alguns aspectos vantajosos: acumulação de idéias, conhecimento e memória. E alguns desnvantajosos: O pensamento de grupo pode atrapalhar a tendência para evitar conflitos, causar atitude de mente fechada, supressão de dissensão, unânimidade falsa e decisões prematuras, conservadoras e imperfeitas. O “andídoto” proposto para evitar estas desvantagens me lembrou muito as idéias do desenvolvimento ágil, que já comentei em outros posts: Líder imparcial, cultura aberta à crítica construtiva, a informações vindas de fora, formação de subgrupos, etc.
Concluímos que a teoria da utilidade desconsidera o fato de que muitas situações de risco são sujeitas a pressão emocional e de tempo, e que existem algumas variáveis que nos impossibilitam de utilizar 100% de nossa racionalidade – todos os cálculos e probabilidades nem sempre cabem em nossa memória de trabalho. E é por este motivo que o ser humano acaba, naturalmente, utilizando heurísticas: modelos de tomada de decisão que nem sempre retornam a solução otimizada, mas a mais sensata, levando em consideração as inúmeras variáveis que possuem os seres-humanos.
Daniel Kahneman: http://en.wikipedia.org/wiki/Daniel_Kahneman
Teoria do prospecto:http://en.wikipedia.org/wiki/Prospect_theory
Não percam os meus próximos 2 posts: Continuarei tratando sobre o tema “Tomada de Decisões”, abordando métodos e heurísticas utilizadas por seres-humanos em Julgamentos e Raciocínio.
Até a próxima!



Não sei nem por onde começar…até entendi essa matéria, mas quando apareceram os números aaaiiiii já viu né…
O bom é saber que tudo o que pensamos pode ser justificado em forma lógica. Isso faz os leigos, como eu, entenderem além…
E também que a maioria das decisões que tomei nessa vida deram certo, portanto, tenho um raciocínio bom né? Não foi mera sorte do destino…ou acaso…
Vamos ver os julgamentos, estou curiosa para esse…muito debate está por vir!
Bjos!
Bem interessante seu post. Mas tem um ponto que fiquei em dúvida : “a probabilidade do resultado ser 2 dados iguais é de 1/6″. A probabilidade de 2 dados de seis lados serem iguais é na verdade de 1/36 que é a probabilidade de um dado sair como o número ( 1/6 ) vezes a probabilidade do outro lado sair com o mesmo número ( 1/6 ) já que os dois eventos são independentes.
Esclarecendo a sua dúvida:
- A probabilidade dos resultados de 2 dados de 6 lados serem iguais não é 1/6 * 1/6, uma vez que 1 dos dados pode assumir qualquer valor (probabilidade 1) bastando que o outro assuma o mesmo valor (probabilidade 1/6), assim 1 * 1/6 = 1/6 mesmo! =]
Outra maneira de resolver o problema:
A probabilidade seria 1/36 caso o valor esperado nos dois dados fosse especificado, mas como pode ser qualquer valor repetido o conjunto de probabilidades ficaria assim:
- Probabilidade para os 2 dados resultarem em 1: 1/36
- Probabilidade para os 2 dados resultarem em 2: 1/36
- Probabilidade para os 2 dados resultarem em 3: 1/36
- Probabilidade para os 2 dados resultarem em 4: 1/36
- Probabilidade para os 2 dados resultarem em 5: 1/36
- Probabilidade para os 2 dados resultarem em 6: 1/36
- Probabilidade para os 2 dados resultarem no mesmo número: Somatória das probabilidades anteriores (1/6)
Entendi agora ! Então apenas se escolhermos previamente o número que vai ser igual nos dois dados teremos a probabilidade de 1/36. Obrigado pela explicação.